Era uma vez um contralto…
que entrou num grupo coral e aprendeu a 2ª voz de todas as músicas que o coro cantava.
Sentia-as melodiosas e diferentes, mas sempre um suporte poderoso dos sopranos agudos que, no fundo, invejava de forma saudável.
Passaram anos naquilo. A sua voz, também usada numa profissão exigente (se bem que nesta, por intuição e experiência de anos, sempre mais bem colocada), sentia cada vez maior dificuldade em produzir determinadas notas agudas demais para si, o que se revelava frustrante. A garganta doía-lhe frequentemente e a tosse e constipações eram uma constante que os cigarros agravavam e o canto ia aliviando, ao abrir-lhe os pulmões.
Ao fim de quatro anos, em vésperas de Natal, tanto sarnara a cabeça ao maestro, que este lhe permitiu cantar, com os tenores, a canção da “notícia da meia-noite dos que iam dar os parabéns a Maria”.
Confortavelmente, foi-se instalando nesta voz.
Aprendeu todas as músicas que conhecia, novamente, mas nas terceiras linhas das pautas. Quanto às novas, já de princípio, sem problemas.
Vestiu calças e laço, camisa de smoking e casaquinho preto, semelhante à das vozes masculinas, e começou a fazer espectáculos com outra voz. Os homens do coro deixaram de ser homens e passaram a vozes masculinas: uma questão de gramática.
Sentiu-se um pouco travesti, é verdade. A diferença perturbava-a, intimidava-a mesmo quando entrava num palco. Porém, a confiança foi crescendo e o sentimento de insegurança perdeu-se. Começou até a sentir algum orgulho e vaidade na sua diferença.
O grupo de vozes de que passara a fazer parte mantinha relações fáceis de convívio, quer na aprendizagem das canções e das técnicas, quer nas conversas amigáveis do dia a dia. A disciplina, os comportamentos mais serenos e contidos não causavam discussões como entre as senhoras. Escolher um coordenador de naipe não foi problema nenhum: nomearam o travesti, por preguiça, talvez (de qualquer forma, esta figura, pouco funcional, não revelava grande importância ou trabalho de maior, o que não constituía tarefa exigente, portanto).
Os anos vão passando e o conforto aumenta. Apenas nas canções de notas excessivamente graves para a garganta do travesti, o mal-estar nele se instala. Nada é total e perfeito, afinal…. Mas a atenção e carinho que sente de todos os companheiros (e companheiras), o seu apoio, a competência e rigor do maestro, tudo fazem superar.
Há mesmo, no grupo, um outro contralto que deseja, ardentemente, tornar-se travesti.
Mas o outro chegou primeiro e o maestro não quer seguramente um coro de louras e morenas, no último degrau dos concertos, pelo que vai insistindo para que aquela se mantenha no grupo a que tem pertencido. Por enquanto….
Cá te espero, São!
Paula Lacerda
02/11/2010
- Paula -











