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3 de outubro de 2011

CHARLES GOUNOD

No próximo Ciclo de Música Sacra iremos interpretar algumas obras de Gounod, nomeadamente a sua Missa Brevis nº 7, o Ave Verum Corpus, e o famoso Ave Maria que ele compôs sobre um Prelúdio de Bach. Para que todos possamos conhecer melhor o Homem por detrás das obras, dedico-lhe estas próximas linhas, esperando que o compositor deixe de ser um desconhecido para aqueles que o celebram através da sua música.


Nasceu a 18 de Junho de 1818 em Paris, no seio de uma família de artistas. O seu pai era um pintor de talento e a sua mãe uma artista musical competente. Desde os cinco anos de idade que Gounod perdeu o pai, e a sua mãe necessitou dar aulas de piano para ajudar ao sustento dos seus 2 filhos. Foi aqui que ele aprendeu os primeiros passos na música, e revelou desde logo uma grande apetência para a arte musical.
Nestes primeiros anos, assiste com a sua mãe à ópera Otelo de Rossini e ao Don Giovani de Mozart. Estas duas obras-primas revelam-se decisivas na formação do jovem músico que decide então ser compositor para o resto da sua vida.
Profundo admirador de Mozart e de Beethoven, o jovem Charles ingressa no conservatório de Paris onde estuda a arte da fuga e contraponto, bem como composição. Candidata-se ao prestigiado Grand Prix de Rome por duas vezes – na primeira conquista o 2º prémio; na segunda tentativa arrecada mesmo o 1º prémio com a cantata Fernande. Ganha assim uma bolsa de estudo válida por 2 anos na conceituada Villa Médicis, dirigida então por Ingres, que se tornaria rapidamente um dos seus grandes amigos.
Gounod é visto inúmeras vezes na Capela Sistina, deixando-se envolver na arte de Palestrina. A música sacra toma-lhe o espírito e molda-lhe a alma. É durante este período que conhece Pauline Viardot, cantora lírica de renome e talento indiscutível. É ela que o introduz ao teatro lírico musical. É também Pauline Viardot que lhe apresenta Fanny Hensel, a irmã de Felix Mendelssöhn. Extraordinária pianista, ela dá-lhe a conhecer a música alemã romântica que o perturbou e entusiasmou sobremaneira.


Com uma natureza bastante impressionável, o jovem músico sofre a influência do Padre Lacordaire, que se encontrava nessa altura em Roma para restaurar a ordem dominicana. É durante este período que Charles evolui para os estudos eclesiásticos, dedicando-se à teologia e refugiando-se no Mosteiro de San Benedetto em Subiaco.
A partir daqui, assina as suas cartas como 'Abade Gounod'. Três anos mais tarde deixa a pacífica e serena Roma e viaja para a explosiva e fervilhante Viena, onde encontra uma vida artística musical, teatral e sinfónica próspera. 
Aqui, assiste pela primeira vez à representação de 'A Flauta Mágica' de Mozart, estabelece amizades com vários artistas e personalidades influentes da cultura vienense, e reencontra Fanny Hensel, que não perde tempo a apresentá-lo ao seu irmão Felix. Este, dá-lhe a conhecer a sua sinfonia escocesa, e revela-lhe a música de Bach no órgão da igreja de S. Tomás.
Mendelssöhn diz que o Requiem de Gounod é “digno de Cherubini”, e aconselha- o a compôr música sinfónica. Para Gounod, a obra de Mendelssöhn torna-se o “seu modelo mais precioso”.
De volta a Paris em Maio de 1843 Gounod aceita o cargo de director musical na igreja da Missão Estrangeira. É aí que dá a conhecer à paróquia, não sem grande dificuldade, a obra de Bach e de Palestrina. O compositor, então com 30 anos, apercebe-se que só existe um caminho para a fama: a ópera. Contacta a sua amiga Pauline Viardot, que já não via há 10 anos, e ambos trabalham na sua primeira ópera “Sapho”. Mesmo com um sucesso relativo, esta peça chamou a atenção do público e dos críticos.
Depois da morte do seu sogro, Gounod vai viver para a sua propriedade em Saint Cloud. Nesse mesmo ano o seu famoso Ave Maria tem um enorme sucesso na sua versão orquestral. 
Por altura do IIº Império, Gounod compõe “Vive l'Empereur" que se tornará o novo hino nacional em honra de Napoleão III. O compositor retoma o trabalho de Fausto, a sua obra-prima iniciada ainda na altura em que se encontrava em Roma, concluindo-o com algum esforço. No entanto, a obra só estreará em 1859 no Théatre-Lyrique, pois inicialmente o libretto não foi bem aceite. Na verdade, Fausto não obtém um sucesso imediato, e só se impõe mais tarde. Isto deve-se talvez ao carácter mais sinfónico do que melódico da obra, e muito provavelmente ao corte total que o compositor faz com o bel-canto italiano cheio de virtuosismos vocais ao estilo de Meyerbeer, tanto apreciado na época. Pauline Viardot torna-se a primeira “Marguerite” da história, e através da sua interpretação, a crítica aplaude a obra, que, a pouco e pouco, se torna um símbolo do florescimento da arte lírica francesa. Fausto torna-se mesmo a ópera mais interpretada da história francesa, com mais de 500 apresentações em diversos teatros, e mais de 10 anos consecutivos em cena.
A fama e o reconhecimento tinham finalmente chegado, e o compositor deitou mãos à obra e compôs mais algumas óperas - “Philémon et Baucis”, “La Colombe”, “La reine de Saba”, “Mireille” e “Roméo et Juliette”, para citar as mais famosas.


Exausto por este período de intensa actividade criativa, Gounod refugia-se de novo em Roma, onde se volta para a paz e o isolamento religioso. Inicia os primeiros compassos da ópera cristã “Polyeucte”, que interrompe devido ao início da guerra franco-prussiana em 1870. Incapaz de viver sob o domínio inimigo, refugia-se com a sua família em Inglaterra, em casa dos Weldon. Georgina Weldon, cantora lírica, terá uma enorme influência na vida de Charles. O compositor torna-se durante três anos o seu protegido. Anos depois, a sua família regressa a uma França já libertada mas ainda destruída e inicia a reconstrução da casa em Saint Cloud. Com as obras já quase terminadas, Gounod também regressa, embora tenha deixado em Londres muitos manuscritos, entre os quais o da ópera “Polyeucte”, na altura considerada pelo compositor a obra da sua vida. Depois de ver recusada a devolução das suas obras por Georgina Weldon, e perdida a batalha legal pelas mesmas, o compositor foi obrigado a recompor de memória toda a partitura de “Polyeucte”, facto que o esgotou física e emocionalmente. Com o fracasso desta obra, entra em depressão profunda devido ao significado íntimo que esta composição tinha para si. Para Gounod ela é o reflexo das suas convicções mais profundas, e ele chega mesmo a afirmar: “Que pereçam todas as minhas outras obras, inclusive Fausto, mas Polyeucte tem que sobreviver”.
Relutantemente, o músico trabalha na sua última obra dramática - “Le Tribut de Zamora” - e compõe ainda dois oratórios “Redemption" (1882) e “Mors et Vita” (1885). Nos últimos anos da sua vida revela uma riqueza e variedade na sua actividade literária, torna-se crítico, sai em defesa do seu amigo Saint-Saens e supervisiona os seus próprios trabalhos. Em 1890 dirige pela última vez uma obra sua em público, onde obtém um enorme sucesso.

Gounod morre em 17 de Outubro de 1893 em Saint Cloud. O seu funeral foi na igreja da Madeleine, em Paris, presenciada por milhares de admiradores. Para muitos, Charles Gounod permanecerá para sempre como o músico do Amor, devido ao extremo refinamento da sua linguagem, ao seu cuidado com o detalhe, ao ecletismo da sua inspiração, à leveza da sua melodia e harmonia e ao seu critério estético de beleza.■

Maestro Rui Vicente Pinto


1 comentário:

Fernando Vasconcelos disse...

Como curiosidade acrescentaria que o hino oficial do Estado do Vaticano é de sua autoria.